terça-feira, 22 de março de 2011

Aliados

Em pouco tempo a criatura já havia me acertado várias vezes. Aos poucos sucumbia aos ferimentos encharcados em sangue. Eram cortes, fundos, rasos, escoriações, concussões de todos os tipos.
Os joelhos fraquejavam ao peso do corpo. O machado parecia pesar toneladas, as vestes, coitadas, inúteis.
Sobre esses mesmos joelhos caí. Curvado e cabisbaixo preparei-me para encarar minha morte. As gotas de suor e sangue se misturavam em minha testa escorrendo e pingando no chão.
A criatura ergueu-se sobre as duas patas traseiras abandonando a segura camuflagem da grama. Iluminado pelo luar exuberante a pelagem esverdeada dançava conforme o ritmo do vento. Equilibrando-se com a ajuda das suas três caudas ele caminhava lentamente, rosnando tal qual um urso. Seu tórax musculoso era ornamentado com varias cicatrizes, certamente de confrontos anteriores.
Quando finalmente a besta encontrava-se à alguns poucos metros de mim, saboreando cada passo, uma melodia exótica começa a tocar. Nunca tinha ouvido nada igual. Era à principio uma música mórbida que advinda de um instrumento de cordas, aos poucos, ganhou acordes mais arrojados num compasso frenético.
A besta buscava encontrar a fonte da música, que parecia vir de todo lugar. Preparou-se para dar o golpe de misericórdia antes que essa possível ameaça se revelasse.
Cautelosa, olhando de relances os arredores, aproximava-se. Foi quando, juntamente com o instrumento de corda, um assovio somou-se a melodia, incrementando mais emoção.
Emoção essa tomara conta de mim. E, antes que desse por percebido, me sentia revigorado. Com a criatura a alguns passos de mim agarrei meu machado e cravei em seu queixo num golpe vertical ascendente. Fora seu fim.

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